Review: Anno 117: Pax Romana
- @brunosbom
- 12 de nov.
- 8 min de leitura
Torne-se um governador romano e testemunhe o auge e o declínio da Pax Romana no jogo mais ambicioso da série ANNO.

Antes de seguirmos, feche os olhos por um instante e ouça a trilha sonora do jogo. Deixe-se levar pelo som do vento e dos cânticos ecoando sobre as colinas de Albion. Em breve, falaremos com mais detalhe sobre essa obra sonora.
INTRO
Anno 117: Pax Romana marca o retorno triunfal de uma das franquias mais respeitadas e tradicionais do gênero de city builders e estratégia. Pela primeira vez, a série deixa o futuro e as eras modernas para mergulhar profundamente no mundo antigo.
Ambientado no auge do Império Romano, durante o reinado do imperador Trajano, o jogo nos coloca no papel de um governador encarregado de administrar e expandir as províncias sob o domínio de Roma ou, se preferirmos, desafiar a ordem e trilhar um caminho mais independente, especialmente nas fronteiras celtas de Albion.

A franquia Anno sempre foi conhecida por sua tradição numérica peculiar. Todos os títulos somam 9 quando os dígitos do ano são adicionados (1602, 1404, 1800 e agora 117). É uma marca simbólica, uma espécie de assinatura da série. Aqui, a Ubisoft Blue Byte preserva a lógica matemática, mas muda completamente o contexto temporal, levando a saga para o ponto mais distante do passado que já explorou.
DESENVOLVIMENTO
A franquia Anno nasceu em 1998 com Anno 1602, da austríaca Max Design, e evoluiu sob a tutela da Related Designs e Ubisoft Blue Byte.

Pax Romana representa o salto mais ousado da franquia: sair da industrialização e do futurismo para abraçar a Antiguidade.
Anno 117 foi anunciado como um projeto ambicioso que uniria o refinamento mecânico de Anno 1800 com uma ambientação clássica inédita. O time investiu em novas tecnologias de renderização, sistemas de IA mais dinâmicos e uma interface reformulada para suportar tanto o controle por mouse e teclado quanto joysticks.

Um dos marcos de desenvolvimento foi a decisão de lançar o jogo com suporte completo a mouse e teclado nos consoles. Jogando no Xbox Series X, a experiência é praticamente idêntica à de um PC, algo raro em jogos de estratégia. Essa escolha amplia o alcance do gênero, tornando-o acessível a públicos que antes ficavam afastados por limitações de controle.
Nos bastidores, o estúdio Ubisoft Mainz trabalhou quase quatro anos em cima de novos sistemas de IA econômica, modulação naval e simulação de religião, o que explica por que o jogo mantém a essência, mas adiciona camadas inéditas de personalidade.
CONTEXTO HISTÓRICO
O título se ancora no período conhecido como Pax Romana, quando o Império atingiu sua máxima extensão territorial sob o imperador Trajano.Mas a “paz” do título é relativa: os limites com os povos celtas, germânicos e dacios ainda pulsavam de tensão. Essa ambiguidade é o coração do jogo, estabilidade aparente e poder em expansão.
O jogador vivencia não só a economia de uma metrópole romana, mas também as sutilezas políticas: administração de colônias, integração cultural e culto aos deuses.
As bênçãos divinas como de Marte, Ceres e Netuno, são mais do que metáforas: elas se traduzem em bônus mecânicos que refletem fielmente o pensamento sincrético da época. Marte concede força militar, Ceres fertiliza colheitas e Netuno guia os navios por mares seguros.

É uma das abordagens históricas mais elegantes que a franquia já executou, contextualizando crenças e política sem romantizar o império, apenas deixando o sistema econômico e social falar por si.
GAMEPLAY
Em poucos minutos, percebi que Roma não se constrói em um dia, nem minhas rotas comerciais. Cada decisão carrega o peso de um império, e cada erro custa mais do que ouro. Anno 117 apresenta um ritmo de aprendizado quase poético. Tudo é introduzido aos poucos, de forma orgânica e intuitiva. A HUD e as ferramentas de construção vão sendo liberadas gradualmente, permitindo que o jogador se familiarize com o sistema sem se sentir sobrecarregado. É um acerto magnífico e um avanço que todos os jogos de estratégia deveriam buscar.
Como todo bom city-builder, Anno 117 gira em torno do equilíbrio entre economia, recursos e planejamento urbano.

No início da campanha, é preciso erguer as primeiras casas, garantir lenha para a construção e o comércio, e estabelecer as rotas marítimas que conectam as ilhas. É o ponto de partida para entender como cada decisão molda o crescimento do império.
Na parte superior da tela, o jogador acompanha informações vitais como o número de denários disponíveis nos cofres, o saldo obtido ao longo do tempo, a população total, as estatísticas do governador e o nome do posto avançado sob seu comando. Também é possível observar a mão de obra disponível, o rendimento e a população de cada ilha, compondo um retrato econômico completo da província.

Na parte inferior, estão os controles de tempo e o modo de construção, com acesso ao mapa provincial e às ilhas. O jogador pode pausar, acelerar ou desacelerar o tempo conforme a necessidade, ajustando o ritmo da administração. O mapa exibe detalhes geográficos como rios, formações rochosas e áreas férteis, fundamentais para o planejamento urbano.
Um dos detalhes mais encantadores está na forma como a iluminação acompanha o ciclo natural do dia. A cidade pode ser observada alternando visualizações entre o amanhecer, sob o sol do meio-dia ou à luz suave das tochas à noite, criando um sentimento constante de contemplação. É nessa harmonia entre jogabilidade, HUD e ambientação que Anno 117 revela sua verdadeira identidade: uma experiência tão tática quanto meditativa.

Após estabelecer as bases iniciais (vilas, armazéns, cadeia de suprimentos), o jogador é gradualmente empurrado para um desafio de escala e especialização.
O jogador deixa de pensar apenas como um urbanista e começa a agir como um verdadeiro governador romano, equilibrando três esferas fundamentais de poder:
🏗️Econômico: ampliação das cadeias produtivas, com novos bens de luxo e manufatura fina.
⚔️Militar/Diplomático: disputas por ilhas, tratados, rebeliões e guerra terrestre e naval opcional.
🕊️Cultural/Religioso: templos e cultos que afetam produtividade, felicidade e influência regional.

A introdução dos deuses como mecânica altera profundamente a dinâmica: escolher abençoar Marte significa perder Ceres, e vice-versa, um dilema direto entre prosperidade e segurança.
A expansão territorial é meticulosamente calculada: conquistar não é apenas ocupar, mas equilibrar rotas marítimas, suprimentos e moral da população.
E as guerras (ou a ausência delas) são fruto de decisões políticas, não de scripts, uma raridade entre jogos de estratégia moderna.

A liberdade arquitetônica também evolui: as ruas diagonais e construções rotacionáveis permitem um urbanismo mais orgânico, em contraste com a rigidez de títulos anteriores. A cidade se torna uma entidade viva, que respira, cresce e se adapta ao terreno.
TRILHA SONORA
Composta pela Dynamedion GbR(uma empresa alemã de composição e produção musical com sede em Mainz)

O resultado é imersão auditiva pura: uma calmaria solene enquanto o sol nasce sobre Latium; uma tensão sutil quando o Senado exige relatórios; o eco distante de tambores quando Marte é invocado.
É algo tão calmo e sereno que somos guiados naturalmente pela vontade de criar, construir, existir dentro daquele mundo
Há momentos em que a música parece respirar junto com Roma, cada nota é um suspiro de civilização.
ACHIEVEMENTS
Em vez de coletáveis ou repetições forçadas, cada conquista se integra organicamente à jogabilidade: alcançar um posto de comando, realizar eventos no anfiteatro, eliminar inimigos específicos ou administrar crises econômicas.

Nada é artificial. Tudo é consequência natural de jogar bem.Esse design incentiva a exploração completa das mecânicas, tornando o sistema de achievements uma extensão da própria curva de aprendizado, uma filosofia de design que poucos jogos de estratégia atingem com tanta naturalidade.
ENTRE GLÓRIAS E GARGALOS
Por trás da pompa das legiões e do esplendor das vilas romanas, Anno 117 também carrega o peso do seu próprio império, aquele das engrenagens que rangem sob o peso da ambição. O sistema de logística, coração da franquia, continua vibrante, mas às vezes pulsa de forma irregular. As novas rotas automatizadas aliviam parte da carga de microgestão, mas não resolvem a lentidão no transporte entre armazéns, que agora compartilham inventário, mas ainda dependem de um tráfego que se congestiona quando a cidade atinge maturidade. É o velho dilema da série: eficiência versus estética. Visualmente, o jogo mantém o esplendor característico, cidades que parecem mosaicos animados, detalhadas até o último tijolo. No entanto, quando o império cresce demais, a engine acusa o esforço: o uso intenso de simulações individuais de cidadãos e rotas comerciais pesa graficamente, resultando em pequenas pausas e variações de quadros. São breves, quase discretas, mas lembram que até Roma tem rachaduras no mármore. A interface, agora redesenhada, é um avanço em aparência, mas não em clareza.
Há menos ícones e menus mais limpos, mas a hierarquia das informações continua exigindo paciência, especialmente nas cadeias de produção mais longas. É o tipo de refinamento que impressiona à primeira vista, mas, no dia a dia, mostra que a modernidade ainda não venceu a burocracia romana. Mesmo assim, há honestidade na forma como o jogo se revela: grandioso e falho em medidas humanas, como a própria Roma que tenta reconstruir.
MINHAS IMPRESSÕES
Houve um instante em que parei de pensar em eficiência e só admirei minha cidade, o crepitar das tochas, o burburinho no fórum, a sensação de que, por alguns segundos, eu realmente governava Roma
Jogando com mouse e teclado no Xbox Series X, a experiência é impecável.É raro ver uma adaptação de um city-builder que ofereça suporte nativo a esse controle nos consoles, e a Ubisoft merece reconhecimento total por isso. Essa decisão abre o gênero de estratégia a novos públicos, mantendo a precisão que o gênero exige.
Durante a campanha, comerciantes aparecem espontaneamente, oferecendo dilemas morais e práticos: confiscar as mercadorias ou negociar, e as consequências são imediatas.Essas escolhas, aparentemente pequenas, constroem um senso de responsabilidade muito real sobre o império.

As interações entre personagenseos diálogos são de altíssimo nível. Nada soa genérico, tudo é contextualizado dentro da lógica romana, com sotaques e expressões fiéis.A sensação de ver sua cidade ganhar forma, iluminada por tochas, enquanto o mercado fervilha e os cidadãos discutem no fórum, é algo que transcende o gênero.
A exploração marítima é quase poética: navegar entre ilhas envoltas em nevoeiro, abrir o mapa aos poucos como quem rasga o véu dos deuses, é uma das experiências mais belas e meditativas que a série já proporcionou.

TRAILER OFFICIAL
RESUMO
Anno 117: Pax Romana é o ponto de convergência entre o passado e o futuro da série. Ele não tenta reinventar Anno, ele o refina. É o jogo mais maduro, mais temático e mais ambicioso que a franquia já produziu.
Com sua ambientação histórica precisa, trilha sonora sublime e direção de arte inigualável, ele entrega uma das experiências de gestão mais envolventes já criadas. Cada cidade construída, cada rota comercial traçada e cada decisão tomada diante das incertezas políticas da Pax Romana refletem um design que valoriza o intelecto e o tempo do jogador. É um título que convida à paciência, ao planejamento e, acima de tudo, à contemplação.
Contudo, nem tudo é perfeição. Mesmo no poder do Xbox Series X, é possível perceber o peso técnico do jogo, lembram que se trata de um projeto originalmente moldado para o PC. Ainda assim, nada disso compromete a imersão geral; pelo contrário, reforça a ambição de um título que ousa ir além das fronteiras técnicas de seu gênero.
Anno 117 não é um jogo para quem busca ação instantânea. É uma experiência para quem entende que a verdadeira beleza da estratégia está em cada decisão tomada com calma, em cada rua traçada com propósito e em cada templo erguido aos deuses do equilíbrio. É um tributo à paciência, ao intelecto e à arte de construir civilizações que resistem ao tempo.
Review by Gamertag: Scoulz




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