Review: Beast of Reincarnation
- @brunosbom
- 3 de ago.
- 8 min de leitura
Ainda é possível haver delicadeza mesmo em um mundo perdido

Quando Beast of Reincarnation foi anunciado pela primeira vez, muita gente olhou para o projeto apenas como "o novo jogo da Game Freak". Era inevitável. Afinal, estamos falando do estúdio responsável por Pokémon há décadas. Mas bastaram poucos minutos com Emma e Ko para perceber que a proposta aqui era completamente diferente.
Depois de concluir toda a campanha, saí com a sensação de que o estúdio finalmente teve liberdade para mostrar do que era capaz fora de sua principal franquia. Beast of Reincarnation aposta em um combate exigente, um mundo belíssimo e uma dupla de protagonistas que rapidamente conquista o jogador. Nem tudo funciona perfeitamente, principalmente em alguns aspectos técnicos e em certas decisões de design, mas poucas vezes vi um primeiro projeto desse porte demonstrar tanta personalidade.
Mais do que tentar seguir a fórmula dos Soulslikes, Beast of Reincarnation cria sua própria identidade ao unir ação, exploração vertical, gerenciamento de habilidades e uma relação extremamente bem construída entre Emma e seu companheiro Ko=o.
HISTÓRIA
A história se passa milhares de anos no futuro, em um Japão devastado pela Pestilência, uma força capaz de corromper pessoas, criaturas e a própria natureza. Nesse cenário acompanhamos Emma, uma jovem que pouco conhece sobre sua origem e carrega um destino ligado ao futuro da humanidade.
Desde os primeiros minutos, Beast of Reincarnation deixa claro que sua narrativa terá um papel importante na experiência. Diferente de muitos jogos do gênero, que escondem grande parte do enredo em detalhes opcionais, aqui a campanha apresenta sua história constantemente através de diversas cenas. Em alguns momentos essa quantidade de cutscenes pode quebrar um pouco o ritmo da exploração, mas é justamente isso que permite desenvolver melhor seus personagens.

O grande destaque é a relação entre Emma e Ko, um cão gigante encontrado ferido e preso a uma árvore por uma flecha. O encontro entre os dois acontece de maneira silenciosa e rapidamente percebemos que existe uma conexão muito maior do que apenas uma parceria de combate.
Durante a jornada, podemos fortalecer esse vínculo, acariciar Ko e desbloquear novas possibilidades para suas habilidades. O que poderia ser apenas uma mecânica de progressão acaba funcionando também como uma forma de aproximar emocionalmente os personagens. Ko se tornou um dos companheiros mais úteis e carismáticos que encontrei recentemente nos jogos, chegando a ser mais bem aproveitado do que o próprio D-Dog de Metal Gear Solid V.

Ao longo da campanha conhecemos personagens como Kagura, Brad, Violet e Kunai, que ajudam a construir esse mundo. Kagura se destaca principalmente pela forma como mostra uma nova perspectiva para Emma, uma protagonista que aos poucos aprende a criar conexões com outras pessoas. Pequenos momentos, como aprender expressões simples de convivência, tornam essas interações bastante humanas.
Violet também chama atenção pelo mistério ao seu redor, já que apenas Emma consegue enxergá-la, enquanto Mikoto ajuda a explicar melhor o funcionamento da Pestilência e as diferentes formas como as pessoas lidam com a corrupção.
Um dos maiores acertos da história é transmitir uma sensação constante de esperança. Mesmo em um mundo destruído, onde criaturas corrompidas dominam a paisagem, Beast of Reincarnation encontra espaço para mostrar beleza, carinho e pequenos momentos de humanidade.
Essa foi a principal sensação que a campanha deixou: mesmo diante de um cenário devastado, ainda existe espaço para delicadeza e para acreditar em um futuro melhor. O encerramento também conclui bem a jornada de Emma, embora deixe algumas perguntas abertas, incluindo um detalhe envolvendo uma segunda cápsula que desperta curiosidade sobre uma possível continuação.
GAMEPLAY
Beast of Reincarnation aposta em uma estrutura de ação inspirada nos Soulslikes, mas encontra sua própria identidade principalmente através da relação entre Emma e Ko. O combate exige atenção, leitura dos inimigos e domínio do parry, mas o grande diferencial está na forma como os dois protagonistas trabalham juntos.
Emma é responsável pelo combate direto, utilizando sua espada, esquivas, defesas perfeitas e habilidades especiais. Já Ko funciona como um verdadeiro parceiro de batalha, podendo assumir diferentes funções através das habilidades desbloqueadas. Ele pode causar dano, proteger Emma ou aplicar efeitos negativos nos inimigos, sendo facilmente um dos companheiros mais úteis que encontrei em um jogo desse estilo. A equipe conseguiu criar um personagem que realmente participa da aventura, e não apenas acompanha o jogador.
O combate dá uma importância maior ao parry do que à esquiva tradicional. Uma defesa perfeita ativa efeitos da Lâmina, permitindo melhorar ataques e liberar novas possibilidades durante as batalhas. Existe também a esquiva perfeita, mas ficou claro durante minha experiência que o jogo recompensa muito mais quem aprende a dominar suas defesas.

Contra inimigos individuais, principalmente chefes, Beast of Reincarnation brilha. Aprender os padrões, entender o momento certo de atacar e conseguir uma vitória depois de dominar suas mecânicas é uma das partes mais satisfatórias da aventura. Porém, quando vários inimigos aparecem ao mesmo tempo, a experiência fica um pouco mais complicada, principalmente por causa da câmera e da mira automática.
Inclusive, uma das minhas principais recomendações é desativar a assistência de mira antes das batalhas contra os Nushi. Em confrontos contra criaturas gigantes, o travamento automático pode atrapalhar bastante o posicionamento e deixar a luta menos precisa.
O primeiro grande exemplo disso é Rangifer, o primeiro Nushi encontrado durante a jornada. O confronto funciona como uma apresentação completa das mecânicas do jogo e melhora bastante quando entendemos a importância do parry, da esquiva perfeita e do controle da câmera. Depois de dominar esses elementos, a batalha se torna uma das mais marcantes do início da campanha.
Ao derrotar os Nushi, Emma absorve seus poderes e desbloqueia novas habilidades. Esse sistema é uma das partes mais interessantes da progressão, já que cada criatura derrotada representa uma nova evolução para a protagonista, algo mostrado visualmente pelas flores que surgem em seu cabelo após a purificação.
A evolução acontece através de uma árvore de habilidades para Emma e Ko, além de equipamentos e talismãs. A ideia funciona bem, mas a organização poderia ser mais clara. Existem muitas melhorias pequenas e nem sempre fica evidente o quanto cada escolha realmente muda a experiência durante o combate.

A base Caminhante e Purificador também possui um papel importante, permitindo melhorar armas, alterar habilidades, descansar e administrar recursos. A estrutura lembra bastante sistemas de base vistos em outros jogos, principalmente pela forma como as recompensas e melhorias estão conectadas ao progresso da aventura.
A exploração é outro ponto forte. Mesmo sem ser um mundo aberto completo, os mapas possuem boas dimensões e uma verticalidade muito interessante. O cabelo de Emma é essencial nesse aspecto, permitindo alcançar áreas elevadas, encontrar caminhos escondidos e explorar melhor cada região. Basta um toque no R2 ou RT para utilizar essa habilidade.
A vegetação é uma das características mais impressionantes do jogo. Além de criar cenários belíssimos, ela faz parte da própria exploração, com raízes, árvores e estruturas naturais servindo como caminhos para novas descobertas.
Os mapas possuem cavernas, acampamentos bem distribuídos e diversos segredos, evitando que o jogador precise atravessar grandes distâncias novamente após uma derrota. Ainda assim, alguns momentos deixam uma sensação de liberdade maior do que o jogo realmente oferece, principalmente quando encontramos locais que parecem acessíveis, mas são bloqueados por barreiras invisíveis.
A dificuldade também é bem equilibrada. Minha recomendação é jogar na dificuldade normal, já que ela mantém o desafio sem tornar a experiência frustrante. O modo fácil acaba diminuindo bastante a proposta do jogo, enquanto o difícil é indicado para quem já possui mais experiência no gênero.

Durante minha campanha, permaneci no normal até o final e gostei bastante da evolução do desafio. A maior recompensa veio de aprender melhor as mecânicas e entender como utilizar cada recurso disponível.
Os Nushi são grandes destaques visuais, mas senti falta de uma maior variedade entre eles. Muitos encontros seguem estruturas parecidas, com sequências de ataques semelhantes e poucas mudanças realmente marcantes na forma de enfrentar cada criatura.
Mesmo com esses pontos, Beast of Reincarnation entrega um dos combates mais interessantes que encontrei recentemente nesse estilo. A combinação entre Emma e Ko, a exploração vertical e a evolução constante fazem a aventura se destacar muito além de uma simples inspiração em Soulslikes.
VISUAIS E SOM
Se existe um ponto onde Beast of Reincarnation impressiona de imediato, é no visual. Utilizando a Unreal Engine 5, o jogo entrega cenários extremamente detalhados, boa iluminação e uma vegetação que se destaca como um dos maiores elementos da identidade do mundo.
A natureza não funciona apenas como estética, já que árvores, raízes e estruturas antigas ajudam a criar a sensação de um ambiente vivo, principalmente pela interação do cabelo de Emma com o cenário.
A protagonista também recebe um ótimo trabalho visual, com bastante detalhe no rosto, roupas e pequenos elementos de design, como as raízes em seu peito, que ajudam a contar mais sobre sua história.

A direção artística mistura muito bem o Japão tradicional com elementos futuristas, unindo paisagens naturais, máquinas antigas e ruínas de uma civilização perdida. A trilha sonora acompanha essa proposta, trazendo uma forte influência japonesa e reforçando a atmosfera da aventura.
Apesar da qualidade visual, a parte técnica apresenta alguns problemas. O desempenho no PC foi um dos principais pontos negativos, com dificuldades para manter 60 FPS mesmo em uma máquina potente. Também encontrei pequenos bugs visuais, principalmente no cenário, mas nada que prejudicasse de forma significativa a experiência.
ACHIEVEMENTS
A lista de conquistas de Beast of Reincarnation possui uma boa variedade, principalmente para jogadores que gostam de explorar tudo que o mundo oferece. Existem objetivos ligados à progressão natural da campanha, como derrotar os principais Nushi, evoluir completamente as habilidades de Emma e Ko, melhorar armas, fortalecer atributos e desenvolver o relacionamento com personagens como Kagura e o próprio Ko. Para quem gosta de completar sistemas internos do jogo, existem bastante conteúdo envolvendo culinária, documentos, sementes, equipamentos e melhorias.

Por outro lado, algumas conquistas acabam exigindo uma dedicação maior do que eu gostaria, principalmente aquelas relacionadas a encontrar todos os objetos espalhados pelo mapa, descobrir todos os santuários, murais lendários e outros elementos de exploração. Apesar de ser interessante incentivar o jogador a observar cada canto do cenário, transformar isso em uma obrigação para completar a lista pode acabar tornando a busca um pouco cansativa. Além disso, existe a tradicional conquista de finalizar o Novo Jogo+, algo que eu pretendo fazer no futuro, mas provavelmente depois de algum tempo antes de retornar novamente para essa jornada.
TRAILER OFFICIAL
RESUMO
Beast of Reincarnation foi uma das maiores surpresas que encontrei recentemente. A Game Freak conseguiu entregar uma experiência completamente diferente daquilo que normalmente esperamos do estúdio, mostrando uma ambição que muitos jogadores talvez não imaginassem ver em um projeto fora de Pokémon.
A relação entre Emma e Ko é o maior acerto da aventura. O companheiro não existe apenas como uma ferramenta de gameplay, mas participa diretamente do combate, da progressão e da própria narrativa. É raro encontrar uma dupla tão bem integrada, onde a presença de um personagem influencia tanto a forma de jogar quanto a maneira como enxergamos a jornada.
O sistema de batalhas também funciona muito bem quando o jogador entende sua proposta. O foco no parry, o uso estratégico das habilidades de Ko e a evolução através dos poderes dos Nushi criam uma progressão bastante satisfatória, recompensando quem se dedica a dominar suas mecânicas.
Ainda existem pontos que impedem o jogo de alcançar a perfeição. A otimização no PC precisa de melhorias, alguns confrontos contra os Nushi poderiam apresentar mais variedade, a árvore de habilidades poderia ser mais clara e algumas limitações do mapa acabam reduzindo um pouco a liberdade durante a exploração. Mesmo com esses problemas, Beast of Reincarnation consegue se destacar pela personalidade que constrói ao longo da campanha.
A combinação entre combate preciso, exploração vertical, uma dupla de protagonistas marcante e um mundo cheio de detalhes faz com que o jogo consiga se destacar dentro de um gênero extremamente competitivo. A jornada de Emma e Ko é uma das experiências mais interessantes que encontrei em 2026 e representa um dos projetos mais ambiciosos e surpreendentes do ano.
Nota: 9.4/10
Review by Gamertag: Scoulz




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