Review: CULTIC
- @brunosbom
- 22 de jul.
- 6 min de leitura
O terror retrô que transforma cada corredor em uma armadilha.

Poucos jogos conseguem despertar aquela sensação de estar jogando um clássico pela primeira vez sem parecer apenas uma cópia do passado. CULTIC faz exatamente isso. Desde os primeiros minutos fica evidente que sua inspiração vem dos grandes FPS da década de 90, mas ao invés de apenas repetir fórmulas conhecidas, ele utiliza essas referências para construir uma experiência com identidade própria.
Logo no início somos lançados em um mundo tomado por um culto religioso violento, sem muitas explicações. Você assume o papel de um detetive que sobrevive a uma tentativa de execução e passa a perseguir os responsáveis enquanto descobre os segredos por trás daquela organização. A narrativa não depende de longas cenas cinematográficas. Ela é construída através da exploração, documentos espalhados pelos mapas e pela própria ambientação, deixando boa parte da interpretação nas mãos do jogador.
Essa escolha combina perfeitamente com a proposta do jogo. Em vez de interromper a ação constantemente para contar sua história, CULTIC prefere deixar que cada cenário fale por si. Manicômios abandonados, igrejas tomadas por fanáticos, fazendas isoladas e laboratórios escondidos ajudam a construir uma atmosfera extremamente desconfortável do início ao fim.
Mas se existe algo que realmente chama atenção logo de cara é sua direção artística.
O estilo visual remete imediatamente aos FPS clássicos dos anos 90. Os sprites, a iluminação, a violência exagerada e a própria construção dos mapas lembram jogos como Blood, Doom e Duke Nukem 3D. Eu não vejo isso como um defeito. Muito pelo contrário. Essa inspiração acaba sendo uma das características mais agradáveis de toda a experiência.
Diversos objetos espalhados pelos cenários podem ser destruídos ou utilizados durante a exploração, fazendo com que cada ambiente pareça vivo. Mesmo utilizando uma estética retrô, o jogo consegue criar mapas ricos em detalhes, incentivando constantemente a curiosidade do jogador.
GAMEPLAY
Se o visual desperta nostalgia, basta começar o primeiro tiroteio para entender que CULTIC não pretende ser apenas um museu dos FPS antigos.
Os combates são extremamente rápidos e violentos. A sensação inicial lembra bastante Doom, principalmente pela velocidade com que os confrontos acontecem. Ao mesmo tempo, existe um gerenciamento muito maior dos recursos disponíveis. Não basta apenas sair correndo atirando em tudo que aparece pela frente.
Utilizar as armas de maneira inteligente faz toda a diferença. Headshots eliminam diversos inimigos rapidamente, explosivos limpam grupos inteiros e cada munição desperdiçada pode fazer falta poucos minutos depois.
A dinamite, por exemplo, acaba se tornando uma das ferramentas mais divertidas do arsenal. Ela pode ser utilizada tanto para eliminar grandes grupos quanto para interagir com partes do cenário. Durante minha campanha fiquei bastante curioso para utilizar explosivos na abertura de alguns caminhos específicos, embora nem sempre isso tenha funcionado como eu imaginava.
Outro ponto que me agradou bastante foi a variedade das armas.
Cada novo equipamento realmente modifica a forma como você enfrenta os inimigos. Quando a shotgun entra em cena, por exemplo, o ritmo muda completamente. O combate passa a lembrar ainda mais Doom, principalmente pela agressividade que ela proporciona. E isso está longe de ser uma crítica. Pelo contrário. Essa evolução constante do arsenal impede que o gameplay fique repetitivo durante toda a campanha.

O jogo também apresenta pequenas instruções sempre que uma mecânica inédita aparece. É um detalhe simples, mas que evita confusões sem quebrar o ritmo da exploração.
Falando em exploração, esse talvez seja um dos maiores acertos de CULTIC.
Grande parte das fases foi construída seguindo a filosofia dos antigos FPS. Existem passagens escondidas, portas secretas, áreas opcionais, chaves espalhadas pelo cenário e inúmeros caminhos alternativos. Em vários momentos eu simplesmente abandonei o objetivo principal para investigar corredores aparentemente sem importância, apenas para encontrar novos recursos ou descobrir algum segredo.
E segredos realmente não faltam.
Durante uma das fases encontrei apenas um segredo de um total de onze disponíveis. Isso mostra o quanto os mapas escondem conteúdo para quem gosta de explorar cada canto.
Essa construção lembra bastante Duke Nukem 3D e outros clássicos da época, onde descobrir áreas escondidas fazia parte da diversão e aumentava bastante a duração da campanha.
Nem tudo, porém, funciona perfeitamente.
A movimentação da câmera foi um dos pontos que mais me incomodaram durante a experiência. Mesmo ajustando a sensibilidade do mouse para o menor valor disponível, ainda senti dificuldade para encontrar uma velocidade confortável. A resposta dos movimentos nunca pareceu exatamente como eu gostaria.
Esse problema acabou influenciando diretamente alguns confrontos mais intensos, principalmente quando era necessário reagir rapidamente a inimigos surgindo por diferentes direções.
Curiosamente, esse incômodo diminuiu bastante quando passei a jogar na dificuldade Casual.

Pode parecer estranho recomendar a dificuldade mais baixa para quem já possui experiência com FPS, mas foi exatamente isso que aconteceu comigo. Mesmo jogando esse gênero há bastante tempo, achei a dificuldade Casual muito mais equilibrada para aproveitar o restante da experiência sem transformar cada encontro em uma batalha excessivamente punitiva.
A dificuldade padrão, a quantidade de inimigos impressiona. É comum enfrentar dezenas deles em uma única área. Muitos utilizam armas semelhantes às suas e são posicionados estrategicamente para surpreender o jogador sempre que possível. Armadilhas espalhadas pelo cenário aumentam ainda mais essa sensação de perigo constante.
Existem momentos em que o próprio level design parece avisar que algo muito difícil está prestes a acontecer. Em outros, a mensagem é praticamente a contrária: não vale a pena enfrentar tudo. Apenas corra e sobreviva.
Essa alternância entre combate intenso e fuga ajuda bastante a manter o ritmo da campanha imprevisível.
VISUAIS E SOM
Se existe um departamento que praticamente não decepciona é o audiovisual.
Visualmente, CULTIC faz um excelente trabalho ao misturar tecnologia moderna com uma estética inspirada nos anos 90.
Os sprites lembram os grandes clássicos do gênero, mas iluminação dinâmica, partículas, física e diversos efeitos contemporâneos impedem que tudo pareça apenas um filtro nostálgico. Existe personalidade em praticamente todos os ambientes. Cada mapa possui identidade própria e consegue transmitir exatamente a sensação que deveria, seja através da arquitetura, da iluminação ou da quantidade absurda de sangue espalhada pelos cenários.

A trilha sonora é outro enorme acerto. Ela sabe exatamente quando aparecer e, principalmente, quando desaparecer. Durante boa parte da campanha fui surpreendido justamente pelos momentos em que quase não existia música alguma. O silêncio faz você imaginar que existe alguma ameaça escondida logo na próxima sala.
Essa combinação entre áudio e ambientação torna vários trechos muito mais tensos do que seriam apenas utilizando sustos baratos.
ACHIEVEMENTS
Para quem gosta de completar 100% dos jogos, CULTIC oferece uma lista de conquistas extremamente divertida.
Boa parte delas incentiva experimentar mecânicas que muitos jogadores provavelmente ignorariam durante uma campanha comum.
Existem desafios envolvendo tiros extremamente precisos, eliminações criativas utilizando objetos do cenário, uso inteligente dos explosivos e até situações bastante inusitadas que arrancam algumas risadas quando finalmente são descobertas.

Também existem conquistas voltadas para exploração, exigindo encontrar todos os segredos espalhados pelos capítulos, além de objetivos relacionados aos upgrades das armas, sobrevivência, desafios específicos de combate e modos extras.
O mais interessante é que elas raramente parecem apenas uma lista de tarefas repetitivas. Em vários momentos tive a impressão de que os próprios desenvolvedores estavam incentivando os jogadores a experimentar maneiras completamente diferentes de enfrentar cada situação.
O único aviso fica para quem pretende completar 100%. Algumas conquistas exigem bastante habilidade, principalmente aquelas relacionadas à dificuldade máxima, ausência de dano e localização de todos os segredos dos mapas.
TRAILER OFFICIAL
RESUMO
CULTIC é uma carta de amor aos FPS clássicos sem abrir mão de boas ideias próprias.
Sua excelente direção artística, o level design extremamente inteligente, a enorme quantidade de segredos, o combate violento e a atmosfera de survival horror criam uma experiência bastante diferente da maioria dos shooters atuais. Certamente quem jogar vai ser marcado pelo "cara da serra elétrica" de forma não tão amigável.
Minha principal crítica continua sendo o comportamento da câmera, que nunca ficou totalmente confortável para mim mesmo após diversos ajustes de sensibilidade. Felizmente isso diminuiu bastante quando passei a jogar na dificuldade Casual, que considero a melhor forma de aproveitar a campanha pela primeira vez.
Também gostei muito da maneira como o jogo recompensa a exploração. Encontrar passagens secretas, descobrir novos caminhos e revisitar áreas antigas nunca parece perda de tempo. Pelo contrário, é justamente esse espírito de curiosidade que faz CULTIC lembrar tanto os grandes clássicos do gênero.
Se você procura um FPS moderno cheio de elementos cinematográficos,
provavelmente encontrará opções mais adequadas. Agora, se sente falta da criatividade, da exploração e da brutalidade dos shooters dos anos 90, CULTIC merece entrar na sua lista. É um daqueles jogos que entendem perfeitamente suas inspirações e conseguem transformá-las em algo que continua divertido até os dias de hoje.
Nota: 8.9/10
Review by Gamertag: Scoulz




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