Review: Hell Clock
- @brunosbom
- há 1 dia
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Um mergulho ao inferno onde a cultura brasileira encontra um dos roguelikes mais viciantes dos últimos anos.

A indústria brasileira de jogos vem conquistando cada vez mais espaço com projetos que apostam em identidade própria, e Hell Clock é um daqueles casos em que essa personalidade aparece desde os primeiros minutos. Em vez de apenas buscar inspiração nos grandes nomes do gênero, a Rogue Snail constrói uma experiência que utiliza referências bastante conhecidas para criar algo que possui sua própria assinatura. Foi uma surpresa descobrir um jogo que reúne elementos de Diablo e Hades de uma forma tão natural, automatizando diversas ações para deixar o combate ainda mais fluido, enquanto utiliza um dos episódios mais marcantes da história do Brasil como pano de fundo para sua aventura.
Mais do que um excelente roguelike, Hell Clock demonstra um cuidado admirável com sua ambientação. A cultura brasileira aparece na dublagem, nas expressões, nos diálogos, nos personagens e na forma como toda a narrativa foi construída. É aquele tipo de detalhe que aproxima o jogador do universo apresentado e faz com que a aventura tenha uma personalidade difícil de encontrar até mesmo em produções internacionais. Pouco tempo depois de começar a campanha, ficou claro para mim que este era exatamente o tipo de jogo que eu não sabia que estava sentindo falta.
HISTÓRIA
Hell Clock apresenta uma releitura fantástica da Guerra de Canudos, utilizando o conflito histórico como base para uma narrativa sobrenatural bastante envolvente. Controlamos Pajeú, um guerreiro que decide atravessar as profundezas do inferno para resgatar a alma de Antônio Conselheiro após os acontecimentos que marcaram o fim de Canudos.
Embora a premissa seja carregada de elementos históricos, o jogo nunca tenta ser um retrato fiel dos acontecimentos. A proposta é utilizar esse contexto para construir uma aventura repleta de demônios, criaturas infernais e locais corrompidos, transformando um episódio importante da história brasileira em um cenário perfeito para um ARPG.
Conforme avançamos pelos diferentes níveis da masmorra, novos acontecimentos são revelados através de cenas muito bem produzidas. Gostei bastante da forma como a campanha recompensa o progresso do jogador. Cada novo trecho vencido costuma trazer uma cutscene que amplia o contexto dos personagens e mantém a curiosidade sempre alta para descobrir o que existe mais adiante.

Essa estrutura funciona muito bem porque a narrativa acompanha o próprio crescimento do personagem. Enquanto as batalhas ficam mais intensas, a história também ganha mais peso, fazendo com que o avanço nunca pareça apenas uma sequência de salas cheias de inimigos.
GAMEPLAY
A estrutura de Hell Clock é extremamente fácil de entender, mas oferece uma profundidade enorme para quem gosta de experimentar builds diferentes.
Cada expedição nos leva para uma região infernal composta por diversos andares. Conforme derrotamos os inimigos, avançamos cada vez mais fundo na masmorra, enfrentando desafios maiores e encontrando recompensas cada vez melhores. Esse ciclo acaba se tornando extremamente viciante porque praticamente toda sala oferece algum tipo de evolução para o personagem.
O combate é um dos grandes destaques. As habilidades são rápidas, possuem ótimo impacto visual e evoluem constantemente durante cada tentativa. O sistema de progressão faz com que uma habilidade simples possa se transformar completamente poucos minutos depois, criando combinações extremamente poderosas.

Uma decisão bastante inteligente da Rogue Snail foi automatizar diversas ações que normalmente exigiriam mais gerenciamento do jogador. Isso deixa toda a experiência muito mais dinâmica, permitindo que o foco permaneça no posicionamento, na movimentação e na construção da build. É uma filosofia que lembra bastante Hades, mas com uma quantidade de personalização muito próxima de Diablo.
Os equipamentos também exercem um papel fundamental na evolução do personagem. Depois de resgatar determinados personagens presos na masmorra, novas opções passam a ficar disponíveis, ampliando significativamente as possibilidades de customização.
Não se trata apenas de trocar uma espada por outra com números maiores. Os equipamentos alteram atributos importantes, aumentam a vida, fortalecem habilidades específicas e, em muitos casos, mudam completamente a forma como enfrentamos cada combate. É aquele tipo de sistema que incentiva constantemente a testar novas combinações.
Outro elemento extremamente importante são as relíquias espalhadas durante as expedições. Elas possuem efeitos muito poderosos e conseguem transformar completamente uma partida. Em diversas ocasiões me vi adaptando toda a build apenas porque encontrei uma relíquia que combinava perfeitamente com determinada habilidade.

Essa liberdade faz com que praticamente nenhuma tentativa seja igual à anterior. Mesmo utilizando o mesmo personagem, sempre existe espaço para experimentar estratégias diferentes.
O próprio Hell Clock, o relógio que dá nome ao jogo, também influencia diretamente o ritmo das partidas. Existe uma constante sensação de urgência durante a exploração, obrigando o jogador a equilibrar risco e recompensa. Felizmente, quem prefere aproveitar a campanha sem essa pressão pode utilizar o modo Relaxed, removendo a limitação de tempo e permitindo explorar cada área com muito mais calma.
Se existe algum ponto que pode afastar parte dos jogadores é justamente a quantidade de sistemas disponíveis logo nas primeiras horas. Equipamentos, bênçãos, habilidades, relíquias, progressão permanente e diversas outras mecânicas aparecem rapidamente. Felizmente, o aprendizado acontece de forma bastante natural e, depois de algumas partidas, tudo passa a fazer sentido.
VISUAIS E SOM
Visualmente, Hell Clock possui uma direção de arte muito bonita. As regiões infernais apresentam bastante personalidade, os efeitos das habilidades são chamativos sem prejudicar a leitura da ação e a quantidade de inimigos em tela ajuda a transmitir aquela sensação constante de caos que combina perfeitamente com o estilo do jogo.
Os chefes também merecem destaque. Cada encontro apresenta criaturas marcantes, com ataques fáceis de identificar visualmente e padrões que exigem atenção constante durante o combate.
Mas talvez o aspecto que mais tenha me conquistado seja toda a construção cultural presente na produção.

Os diálogos utilizam expressões brasileiras de forma extremamente natural. A dublagem transmite personalidade aos personagens, os dialetos soam autênticos e a adaptação linguística demonstra um cuidado raro até mesmo em grandes produções internacionais. Em nenhum momento tive a sensação de estar ouvindo um texto traduzido apenas para cumprir tabela.
A trilha sonora acompanha muito bem esse conjunto, alternando momentos de tensão durante as batalhas com composições que reforçam a atmosfera dramática da campanha.
Toda essa identidade faz de Hell Clock um daqueles jogos que dificilmente poderiam ter sido produzidos em outro lugar. Existe um orgulho evidente em utilizar referências brasileiras para construir um universo próprio, e isso acaba tornando toda a experiência ainda mais especial.
Não seria exagero colocá-lo ao lado de outros grandes representantes da indústria nacional.
ACHIEVEMENTS
As conquistas de Hell Clock acompanham muito bem a filosofia do jogo e evitam cair na armadilha de simplesmente aumentar o tempo necessário para chegar aos 100%. Boa parte delas é conquistada naturalmente durante a campanha, recompensando o avanço na história, a derrota de chefes importantes, o resgate de personagens e a descoberta de novas mecânicas. Sem revelar momentos específicos da narrativa, a lista incentiva o jogador a explorar praticamente todo o conteúdo disponível, fazendo com que cada nova conquista represente uma etapa significativa da jornada, em vez de apenas cumprir objetivos repetitivos.

Depois que a campanha principal termina, as conquistas passam a incentivar o domínio completo dos sistemas de progressão. Há desafios envolvendo diferentes níveis de dificuldade, modos Hardcore, Ascension, Nightmare, Abyss e Oblivion, além de objetivos ligados à criação de builds cada vez mais eficientes e números de dano impressionantes. Isso faz com que a lista agrade tanto quem deseja apenas concluir a aventura quanto os caçadores de conquistas que gostam de superar desafios realmente difíceis. É uma relação de achievements que valoriza habilidade, conhecimento das mecânicas e dedicação ao endgame, sem depender de tarefas artificiais ou excessivamente repetitivas.
TRAILER OFFICIAL
RESUMO
Hell Clock foi uma das melhores surpresas que encontrei recentemente dentro do gênero. Sua mistura entre elementos de Diablo e Hades funciona de maneira extremamente natural, aproveitando o melhor dos dois mundos enquanto elimina parte da burocracia normalmente presente em ARPGs mais tradicionais. O resultado é um combate extremamente prazeroso, acompanhado por um sistema de progressão que incentiva constantemente experimentar novas builds.
A narrativa baseada na Guerra de Canudos adiciona uma identidade muito forte à campanha, enquanto a excelente localização em português, a dublagem e os diversos elementos culturais ajudam a transformar toda a aventura em algo bastante singular.
Mesmo exigindo um pequeno período de adaptação por causa da quantidade de mecânicas disponíveis, a recompensa chega rapidamente. A cada nova descida ao inferno surgem equipamentos melhores, relíquias mais poderosas, novas habilidades e cenas que tornam a campanha ainda mais interessante.
Para quem procura um roguelike de ação com excelente fator de replay, combate viciante e uma identidade brasileira marcante, Hell Clock merece entrar facilmente na lista de prioridades. É uma produção que demonstra o talento da Rogue Snail e reforça que o Brasil continua produzindo jogos capazes de competir em qualidade com grandes nomes do mercado internacional.
Nota: 8.2/10
Review by Gamertag: Scoulz




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