top of page

Review: The Alters: Last Variable

Mais científica, mais contemplativa e tão envolvente quanto a campanha original.



Uma das maiores qualidades de The Alters foi deixar perguntas importantes no ar mesmo depois dos créditos. Last Variable parte justamente desse princípio ao transformar um dos desfechos possíveis da campanha principal em uma nova história, acompanhando o cientista Jan que decidiu permanecer no planeta enquanto os demais conseguiram escapar. A expansão pode ser iniciada separadamente do jogo base e ainda apresenta um resumo dos acontecimentos anteriores para contextualizar o jogador, embora conhecer as mecânicas e o universo de The Alters torne toda a experiência muito mais interessante.


Em vez de repetir a estrutura da campanha original, a DLC muda completamente sua perspectiva. A sobrevivência continua sendo importante, mas agora divide espaço com uma investigação muito mais profunda sobre os mistérios do planeta, as consequências das escolhas feitas anteriormente e o destino de um Jan que passou anos convivendo com aquilo que os outros deixaram para trás. O resultado é uma expansão que amplia o universo criado pela 11 bit studios sem parecer apenas um conteúdo complementar, encontrando identidade própria ao aprofundar personagens, mecânicas e principalmente sua narrativa.



HISTÓRIA


A campanha acompanha o cientista Jan, a única versão que decidiu permanecer no planeta enquanto os demais Alters conseguiram escapar. E para quem jogou o jogo base, sabe que ele tinha um papel de voz muito ativa como um dos Alters de maior importância no jogo.


Mas logo nos primeiros minutos percebemos que muito tempo se passou desde aqueles acontecimentos. O ambiente mudou, Jan envelheceu e a missão deixou de ser sobreviver por mais alguns dias. Agora o objetivo é entender o planeta, descobrir a verdadeira natureza do Oásis e continuar uma pesquisa que atravessou anos de isolamento.


Essa mudança de perspectiva é justamente o que mais gostei na narrativa. Enquanto o jogo principal era movido pela necessidade constante de escapar antes da chegada do Sol, Last Variable desacelera esse ritmo para mergulhar muito mais fundo nos mistérios daquele mundo. Em vez de descobrir apenas como sobreviver, passamos boa parte da campanha tentando entender por que determinadas coisas aconteceram e quais consequências elas deixaram para trás.



Outro elemento que fortalece bastante a história é a presença do JanBot, uma inteligência artificial criada pelo próprio Jan antes dos acontecimentos da expansão. Muito mais do que um simples computador da base, ele funciona como um registro vivo das pesquisas realizadas ao longo dos anos. Em vários momentos responde perguntas importantes, apresenta hipóteses sobre os fenômenos do planeta e até ajuda a reconstruir parte dos acontecimentos que ficaram em aberto na campanha principal. Gostei bastante dessa abordagem porque ela evita transformar a DLC em uma sequência que apenas entrega respostas prontas. Muitas descobertas continuam exigindo interpretação do jogador, tornando a investigação muito mais interessante.


A própria existência dos novos Alters também ganha um significado diferente. Se antes acompanhávamos versões de Jan que seguiram profissões completamente distintas, agora todos eles surgem a partir do cientista, formando uma equipe composta exclusivamente por especialistas ligados à pesquisa. À primeira vista isso poderia fazer com que todos parecessem iguais, mas acontece justamente o contrário. Cada Alter possui personalidade, prioridades e maneiras muito diferentes de enxergar a missão.

O Físico, por exemplo, demonstra uma confiança quase exagerada em suas próprias ideias e frequentemente acredita estar vários passos à frente dos demais. Já o Geólogo encara boa parte das descobertas com um entusiasmo contagiante, enquanto outras versões apresentam comportamentos mais cautelosos ou pragmáticos. Essas diferenças fazem com que as conversas continuem sendo um dos maiores atrativos da franquia. Em vários momentos eu me pegava adiando uma expedição apenas para acompanhar novos diálogos ou descobrir como determinado Alter reagiria às decisões que havia tomado.


Jan deixa de ser apenas alguém tentando sobreviver e passa a carregar o peso de anos de pesquisa, fracassos e escolhas difíceis. Como agora ele próprio se torna a variável responsável por originar novas versões de si mesmo, a narrativa cria uma camada interessante sobre identidade e continuidade, sem precisar recorrer a longas explicações para fazer esse conceito funcionar.


Existem revelações relevantes ao longo da jornada, mas a 11 bit studios toma cuidado para que o jogador continue montando esse quebra-cabeça aos poucos, ligando documentos, experimentos, diálogos e observações feitas durante a exploração. Isso faz com que Last Variable pareça uma continuação natural dos acontecimentos, e não apenas um epílogo criado para fechar pontas soltas.



GAMEPLAY


Quem já conhece The Alters vai se sentir em casa rapidamente. A estrutura de gerenciamento da base, exploração, coleta de recursos e pesquisa continua sendo o coração da experiência, mas Last Variable faz pequenas alterações que mudam o ritmo da campanha sem descaracterizar aquilo que tornou o jogo original tão envolvente.

A maior diferença está na forma como o tempo é tratado. Enquanto a campanha principal girava em torno de uma contagem progressiva até os eventos que ameaçavam a sobrevivência da equipe, aqui tudo acontece sob uma contagem regressiva para o retorno do Sol. Quando esse momento chega, a superfície do planeta volta a se tornar completamente inabitável, criando uma pressão constante para que cada pesquisa, expedição e construção seja planejada com cuidado. A urgência permanece presente, mas agora ela está muito mais ligada ao avanço científico do que simplesmente à fuga.


Outro sistema que altera bastante a dinâmica da campanha é a criogenia. Em determinados momentos, Jan precisa entrar em longos períodos de sono para preservar sua vida útil enquanto seus Alters continuam trabalhando normalmente na base. Essa passagem de tempo acaba produzindo situações interessantes, já que os cientistas continuam evoluindo, desenvolvendo novas relações e até mudando seu comportamento enquanto o protagonista permanece adormecido. É uma mecânica que conversa diretamente com a narrativa e reforça a sensação de que estamos conduzindo uma pesquisa que acontece ao longo de muitos anos.



A própria base também representa uma mudança importante. Diferente do enorme complexo móvel do jogo principal, agora trabalhamos em uma instalação subterrânea fixa. Isso altera completamente a administração dos espaços. Em alguns momentos precisei reorganizar salas para acomodar novos laboratórios, depósitos e equipamentos de pesquisa, algo que exige um pouco mais de planejamento conforme a campanha avança. Não chega a ser uma revolução na fórmula, mas cria desafios diferentes durante o gerenciamento.


A exploração continua muito próxima da vista no jogo base, e isso pode ser encarado de duas maneiras. Para quem gostou daquele ciclo constante de sair da base, procurar recursos, evitar anomalias e retornar antes que os riscos aumentem, a sensação de familiaridade funciona muito bem. Por outro lado, jogadores que esperavam mudanças mais profundas provavelmente perceberão que boa parte dessa estrutura permanece praticamente intacta.


Mesmo assim, a expansão apresenta novidades suficientes para justificar seu retorno ao planeta. A terraformação é uma delas. Conforme novas pesquisas são concluídas, passamos a recuperar determinadas regiões do mapa, criando uma sensação clara de progresso durante a exploração. É um sistema que conversa diretamente com a proposta científica da campanha e reforça a ideia de que não estamos apenas sobrevivendo naquele ambiente, mas efetivamente tentando compreendê-lo e modificá-lo.



As pesquisas também assumem um papel muito mais importante. Boa parte da progressão depende da produção de novos materiais, da realização de experimentos e do desenvolvimento de tecnologias inéditas. Isso faz com que a administração dos recursos continue sendo extremamente importante, principalmente porque cada decisão pode acelerar ou atrasar significativamente o avanço da campanha.

Outro aspecto que continua funcionando muito bem são as conversas entre os Alters. Como todos pertencem ao universo científico, imaginei que suas personalidades seriam parecidas, mas a realidade é justamente o contrário.


Cada um possui opiniões próprias sobre a missão, interpreta os acontecimentos de maneira diferente e frequentemente entra em conflito com os demais. Essas diferenças tornam a base muito mais viva e fazem com que os momentos de gerenciamento nunca pareçam apenas uma sequência de tarefas automáticas.


Algumas decisões de gameplay também acabaram me incomodando de uma forma até engraçada. Não sei se foi apenas uma impressão minha, mas em vários momentos senti que o mapa exagera na quantidade de barreiras bloqueando a exploração. Não estamos falando de uma ou outra passagem fechada, e sim de dezenas de enormes formações rochosas que constantemente obrigam o jogador explorar melhor até o momento que pode quebra-las. Como optei por jogar em uma das dificuldades mais altas, qualquer desvio significava gastar mais tempo e recursos, aumentando bastante a tensão durante as expedições. Talvez por causa dos acontecimentos do jogo base, eu também passei boa parte da campanha esperando que algum Alter resolvesse tomar uma decisão completamente absurda outra vez. Confesso que houve momentos em que fiquei pensando: "pronto, lá vem mais um querendo cortar o próprio braço". Felizmente isso não acontece, mas a expectativa criada pelas experiências anteriores mostra como The Alters conseguiu construir personagens realmente imprevisíveis.


Se existe um ponto que poderia ter evoluído mais, é justamente o ritmo da exploração. Em diversos momentos a campanha ainda exige aquele tradicional vai e volta entre a base e os pontos de coleta de recursos, algo que já dividia opiniões no jogo original. Felizmente, a qualidade da narrativa e dos novos sistemas acaba compensando esse pequeno excesso de repetição, mantendo o interesse durante praticamente toda a campanha.



VISUAIS E SOM


Visualmente, Last Variable mantém exatamente o alto padrão estabelecido pelo jogo principal. A direção de arte continua sendo um dos maiores destaques da franquia, aproveitando ambientes hostis para construir cenários que conseguem ser bonitos e inquietantes ao mesmo tempo. Embora boa parte da identidade visual seja familiar para quem jogou The Alters, a expansão apresenta novas regiões e utiliza muito bem o contraste entre áreas devastadas e locais onde a pesquisa científica começa a transformar o ambiente.

O Oásis merece um destaque especial. Além de representar um dos maiores mistérios da narrativa, ele entrega algumas das paisagens mais bonitas de toda a experiência. A vegetação exuberante contrasta fortemente com o restante do planeta e transmite imediatamente a sensação de que existe algo diferente naquele lugar. É um cenário que desperta curiosidade desde o primeiro contato e reforça constantemente o desejo de continuar investigando seus segredos.



Outro aspecto que me chamou atenção foi a verticalidade de determinados mapas. Em alguns momentos, a exploração deixa de acontecer apenas em áreas amplas e passa a aproveitar melhor diferentes níveis do terreno, tornando certos trechos mais interessantes de percorrer. Não é uma mudança gigantesca, mas ajuda a quebrar a familiaridade para quem passou muitas horas explorando o planeta durante a campanha principal. Aqui fica também uma parte que eu não gostei, o mapa não se adapta bem a isso, poderia ser melhor trabalhado na questão da altura.


Os modelos dos personagens continuam excelentes, principalmente durante os diálogos. Mesmo compartilhando o mesmo rosto, cada versão de Jan transmite personalidade própria através das expressões, postura e interpretação. Isso faz com que seja muito fácil identificar quem está falando apenas pelo comportamento, algo essencial para uma história construída em torno de diferentes versões do mesmo personagem.


A parte sonora mantém a mesma qualidade. A trilha acompanha muito bem os momentos de exploração, pesquisa e gerenciamento da base, alternando músicas mais discretas durante a rotina científica e composições mais tensas quando a situação exige decisões rápidas. Os efeitos sonoros continuam reforçando muito bem a atmosfera de isolamento, enquanto a dublagem permanece sendo um dos pilares da narrativa, dando identidade a cada Alter e tornando suas conversas ainda mais convincentes.



ACHIEVEMENTS


Assim como no jogo principal, as conquistas acompanham naturalmente a progressão da campanha e incentivam o jogador a explorar todos os sistemas inéditos apresentados pela expansão. Grande parte delas está ligada às novas pesquisas científicas, à produção de materiais avançados como Phased Rapidium, Proxylium e Megafluid, além da utilização dos terraformadores espalhados pelo mapa. Isso faz com que praticamente todas as novidades introduzidas pela DLC tenham algum tipo de recompensa para quem decidir experimentar cada mecânica.



Também gostei da forma como algumas conquistas incentivam a interação com os Alters e aprofundam a narrativa. Completar toda a linha de história dos cientistas está entre os desafios mais interessantes justamente porque leva o jogador a conhecer melhor cada uma dessas versões de Jan, enquanto outras conquistas curiosas, como criar o mesmo Alter pela segunda vez, incentivam experiências que muitos provavelmente não fariam durante uma campanha comum. No fim, Last Variable adiciona apenas sete conquistas, mas todas possuem objetivos relevantes e bem integrados à proposta da expansão, sem dar a sensação de estarem ali apenas para aumentar a lista de desbloqueios.


TRAILER OFFICIAL



RESUMO


The Alters: Last Variable faz exatamente o que eu esperava de uma expansão desse universo. Em vez de simplesmente adicionar novas missões, ela escolhe desenvolver um dos caminhos mais interessantes deixados pela campanha principal e entrega respostas para perguntas que muitos jogadores certamente fizeram ao terminar o jogo base. O foco maior na pesquisa científica, a evolução do cientista Jan e a presença dos novos Alters fazem a história ganhar uma identidade própria sem abandonar aquilo que tornou The Alters tão marcante.


Embora preserve boa parte da estrutura original, incluindo um ciclo de exploração que em alguns momentos ainda pode parecer repetitivo, as novas mecânicas, a excelente construção dos personagens e a qualidade da narrativa fazem com que esse retorno ao planeta valha a pena.





Nota: 8.6/10

 Review by Gamertag: Scoulz


 
 
 

Comentários


Receba notificações quando uma review nova for lançada !

bottom of page